Excerpt for Crônicas do Impossível & Alguns Ensaios Absurdos Vol. 1 by Y.N. Daniel, available in its entirety at Smashwords








CRÔNICAS DO IMPOSSÍVEL

& Alguns ensaios absurdos

Vol. 1



Y.N. DANIEL



EDIÇÃO SMASHWORDS


* * * *


Publicado por:

Y. N. Daniel no Smashwords

Copyright © 2010 by Y. N. Daniel




É PROIBIDA A REPRODUÇÃO

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* * * *



O óbvio é quase sempre profundo



* * * *



Este livro é inteiramente dedicado aos meus amigos.



* * * *



Caro leitor, este quem escreve é o autor.

Os textos a seguir são uma compilação de minhas observações a respeito das inutilezas da vida. Inutilezas tristes, alegres, enigmáticas, bizarras, rasas, profundas, e outras completamente sem sentido.

PS: Aprecie com moderação.



* * * *



Quem é quem (O tiro no ouvido)



Nova, estou de padaria nova. Não, a padaria não é minha, é que mudei de bairro. É um bairro considerado chique (no quê ainda não me é claro...).

Lá para as oito da noite, quando chego do trabalho, quase todos os dias vou à padaria. É um evento. E desde quando comprar pão é evento? Talvez pergunte você. É que neste horário, almas penadas debatem assuntos curiosos.

Do momento em que entro, até o momento que saio, o debate ocorre sem perder o ritmo ou a inventividade.

“Espanhol, espanhol, olha só rapaz, machhquei o dedo do pé!”

“Ah, isso num é nada! E eu que torci pé todo!”

Um velho de cabelo cheio de gomalina observa:

“Fala baixo espanhol, isso aqui é um ambiente de família, não é esses bordel que tu tá acostumado a freqüentar!”

As almas penadas se riem loucamente.

A conversa volta a fluir. Quem fala é um homem de cabelo cinza, óculos redondos e antiquados. Usa um chinelo Ryder e uma bermuda quadriculada.

“Pé torcido? Isso não é nada! E eu que rompi o menilisco!”

Grita o espanhol.

“Tu rompeu o marisco?! Ôôrrrrrraaaa!!!”

“Que marisco o quê, velha surda! Foi o menilisco!”

“Ô Mêmê, deixa de ser ignorante! É menisco!”

“E tu é médico?” retruca o véio Mêmê.

“Médico eu num sô, mas todo mundo sabe que o nome certo é menisco.”

“Tá bom, tá bom”

Interrompe outro véio de cabelo ralo, calça larga, camiseta branca e alpargatas.

“Ô Mêmê, tu acha que tá contando muito com esse teu marisco aí? Isso não é nada! E já quebrei a bacia rapaz! Fiquei um ano na cadeira de roda.”

Outro véio se mete na conversa. Tem o cabelo anormalmente preto, usa colares de ouro e um relojão gigante.

“Ô Arnesto, c vai me desculpar, mas essa tua cadeira de roda tá fraca” Ele levanta a camisa e exibe uma cicatriz que vai do peito até a cintura. “E eu que sofri um acidente de carro, e fiquei em coma um ano e meio e ainda por cima tive que tirar duas costelas!”

As almas penadas começam a rir ainda mais.

Um senhor, sentado numa mesa afastada, olhando para seu copo de whisky com guaraná fala baixo, mas com a entonação do corvo do apocalipse.

“Ô Alan Delon, coma é realmente uma coisa séria, mas isso aí é coisa que se ajeita. Agora veja a minha situação. Minha mulher me deixou, meus filhos não vem me visitar há mais de três anos, e ainda por cima atropelaram meu cachorro ontem”

Um véio, com a camisa do Corinthians, de braço cruzado, que até então estava concentrado no telejornal que exibia a notícia de um terrível acidente na rodovia Raposo Tavares, bate no balcão e grita.

“É o seguinte, agora a coisa é séria. Fiz uns exames ontem, e detectaram um câncer no meu pescoço.” Ele estica o pescoço tentando fazer o número da girafa curiosa e continua “tem um caroço aqui ó, ces tão vendo?”

O espanhol, de olhos pequenos nariz grande e um queixo que o faz parecer o sósia do Popeye não se contém mais e grita.

“Aaaaaaaaaaa!!!!!”

“Quê, quê isso Espanhol?! Tu tá surtando?!” Pergunta o Alan Delon, ao levantar as mãos.

O espanhol, com olhos vidrados, aponta para a orelha direita e grita.

“Tá vendo essa marca aqui?! Tá vendo?! Foi um tiro! Um tiro no ouvido! A bala entrou pelo direito e saiu pelo esquerdo! É!!! É isso aí, um tiro no ouvido!!! Agora vocês ficaram na lona!!!”

Todos riem, uns engasgam com a bebida.

Quando estou saindo e pensando que o espanhol conseguiu superar a todos na competição da desgraça. Eis que o véio do marisco, o Mêmê pergunta:

“Mas peraí... se tu levou um tiro no ouvido de fora a fora, como é que tu tá ouvindo a gente?”

E todos começam a gritar em coro.

“Espanhol! Deixa de ser mentiroso!”

“A é? A é? Se eu sou mentiroso, vocês são o quê?”

Volto para casa com ataques de riso. Não sei em que ponto as coisas horríveis se tornam engraçadas. Em que ponto o trágico se torna cômico, mas acho que isso é apenas uma questão de tempo.



* * * *



Biblio blá blá

Biblio, biblioteca.

Durante minhas férias, resolvi finalizar meu segundo livro.

Achei que o melhor lugar para fazer isso seria a biblioteca.

Escolhi uma que fica próxima ao metrô vergueiro. Creio, é a melhor de São Paulo capital.

Chegando lá, fui guardar minha mochila no guarda-volumes.

Recebi uma chave com um número. Procura daqui, dali, pra frente, para trás, para lado, para baixo, para cima, dou a volta no mundo, visito as ruas de Calcutá, tomo um café em Marraquesh, volto para a biblioteca e não consigo achar o armário com o tal do número.

Digo ao funcionário da biblioteca:

“Não consigo achar este número.”

“Deixe me ver” diz ele “Aaahh, já sei o que é. Esse número não existe. As chaves foram trocadas.”

Ele ri, e me dá um novo número. Guardo minha mochila e entro na bibliolugar.

Procuro a mesa que me parece mais tranqüila, abro meu caderno e começo a pressionar o papel com a ponta de minha caneta preta novinha.

Daí, começa, o show...

“Rapaz, c-apostou no 59? Iiiiiii, esse número não dá não. Número bom é 34, 29, 5”

“É um número como outro qualquer.”

“A é? Então porque você não aposta 1,2,3,4,5,6?”

“Ah, porque esses número, nessa seqüência, não tem como sorteá.”

“Hummmmm... e na dupla sena, c-acertou alguma coisa?”

“Dex'eu vê... hummmmm... nada...”

“Ma também, olha esses número que c aposta: 01, 49, 60. Tá lôco! Só número zicado.”

Uma mulher do meu lado, com pinta de socióloga, se levanta põe a mão na cabeça e se afasta.

Eles continuam batendo os jogos em alto e bem som.

Ouve-se a voz nas caixas de som coladas no teto.

“Atenção, respeite o silêncio na biblioteca. Atenção, respeite o silêncio na biblioteca, obrigada.”

Os dois, de cabeça branca e muito risonhos, evadem-se do lugar às risadas.

Cinco minutos. Novo show...

“Menina, c num sabe.”

“O quê? Conta.”

“Começou a andar.”

“Não, ai você deve tá super feliz”

“Não, tipo, o Pedro tá super feliz. Nossa, quando viu Marcelinho andando quase chorou.”

“Nossa amiga, parabéns! Tô super feliz por você”

“Pois, menina, eu tava super preocupada, que o garoto engatinhava para cá e para lá, e não andava. E o pediatra dizia que isso é assim mesmo. Que cada criança tem o seu tempo. Diz isso, porque não é o filho dele. Humpf!”

“Ainda bem que c-não comprou aquele andador que agente viu na vinte cinco.”

“É mesmo.”

“E, peraí, quem tá tomando conta dele agora.”

“Ele tá com avó. Pego ele as seis e....”

De novo a voz.

“Atenção, respeite o silêncio na biblioteca. Atenção, respeite o silêncio na biblioteca, obrigada.”

Elas se olham, olham para os lados e se retiram; visivelmente irritadas com a voz delicada do alto falante.

Enfim, acho que conseguirá começar a escrever.

10 Minutos. É show....

Sentam-se três mulheres na mesa ao lado.

“Aii, Carla! Acho que você podia pelo menos sair uma vez com ele.”

“Será.”

“É claro! Ele é gerente de banco. Tenho certeza que vai te levar num lugar bacana.”

“Ai num sei, viu?”

“Num sei o quê?”

“Como é que eu vou sair com um homem que tem a bunda maior que a minha? Vai me apagar totalmente. Íiiiiiiiiiiiiii, sem condições.”

As três começam a rir. Seguem certo ritmo nas gargalhadas.

De novo a voz.

“Atenção, respeite o silêncio na biblioteca. Atenção, respeite o silêncio na biblioteca, obrigada.”

Olham-se e estouram de rir de novo. Uma delas imita a voz das caixas de som.

Levanto os braços e digo em voz baixa:

“Ai que loucura!”

Pego meu caderno e minha caneta, novinha e saio.

Subo a rampa e penso:

“Usar a biblioteca, as pessoas estão usando. Agora, só falta explicar para elas para que serve os livros....”



* * * *



O Shopping e o Shakespeare


Há pouco tempo que fui fazer um curso na Avenida das Nações Unidas no prédio da beeeeeeeeep (aqui eu escreveria o nome da empresa). O lugar é tão chique que os prédios do lugar não são prédios, são “torres.”

Meu destino era a “torre.” norte. Chegando lá me dirigi à recepção e logo notei a padronização impecável das recepcionistas. Todas muito bem maquiadas e com aquele olhar de leve desprezo que toda recepcionista que se preze tem que ter. Todas usavam o mesmo penteado. Um coque tão apertado que dava a elas um ar natural de cirurgia plástica recém feita.

Depois de alguns minutos na fila chegou a minha vez.

“Pois não?” Disse a recepcionista levantando as duas sobrancelhas.

“Vim para um curso no 31o. Andar.”

“Seu nome, por favor?”

Disse o meu nome. Ela folheou algumas e páginas e disse sorrido.

“Seu nome não está na lista.”

Quando eu já estava pronto para iniciar um drama, ela anotou meu nome no final da lista e com o mesmo sorriso e estendeu-me um crachá dizendo.

“À sua frente. Os últimos elevadores.”

Peguei o crachá, desconfiado da agilidade dela.

O elevador era imenso. Uma televisão no canto superior mostrava a propaganda de um condomínio magnífico onde com certeza o metro quadrado devia ser mais caro do que o metro quadrado da praia de Copacabana. E como não podia faltar, na parte de baixo da televisão, ficava deslizando da esquerda para direita a cotação do dólar.

Vamos abrir um pequeno parêntese aqui. Vocês já notaram como é importante saber a cotação do dólar? Notem que nos tele-jornais os apresentadores falam sempre em tom solene e com uma pausa de efeito - “o dólar fechou hoje em ...” Francamente, será que a cotação do dólar é tão importante assim? Será que toda a população brasileira possui ativos em dólar? Fecha parêntese.

Cheguei no 31o andar e encontrei uma nova espécie de recepcionista. Assim como os pokemóns evoluem, as recepcionistas também o fazem. Dei de cara com duas loiras de cabelos soltos. Cabelos longos de comercial de xampu.

As duas estavam atendendo uma ligação importantíssima. Perguntei para uma delas.

“O curso é aqui?”

“É sim. Entra aqui e vira à direita. É a segunda sala - o olhar de desprezo foi substituído por um olhar de “estou ocupada.”

Tentei alongar o assunto.

“Meu nome não estava na lista...”

“Não tem problema, ainda tem lugar vago.”

Deixei a loira xampu em paz e fui para o curso. O professor tinha cara de tudo, menos de professor de um curso ministrado em uma “torre.” Ele bem poderia ser um caminhoneiro, um cortador de cana, um dono de armazém, açougueiro, personagem de foto de Sebastião Salgado, pedreiro, indiano, mas professor de informática, nem pensar.

Disse-lhe bom dia, o qual ele respondeu prontamente. Sentei na primeira fila. Não se ouvia nada. O professor ia de um lado para outro para instalar o software necessário para o curso e não se ouvia nenhum comentário. Se retirássemos todos os micros e substituíssemos por grandes cadernos de cópia e colocássemos o fundo musical do filme “O Nome da Rosa.”, teríamos um remake dos monges que faziam cópias de bíblia na idade média. Os alunos estavam catatônicos, provavelmente era devido ao horário. Homens não funcionam bem antes das 11:00 da manhã.

Finalmente à parte da manhã do curso acabou e fui almoçar com meu amigo aristocrático. Ele estava fazendo um curso na sala ao lado. Fomos para a praça de alimentação da “torre.” Sim, o lugar é tão “tchans.” que tem um shopping dentro.

Fomos até a praça de alimentação e lá escolhemos de todas as opções um fast-food japonês. O pedido foi um domburi com frango e tempurá (é leve e fica pronto rápido). Ao nosso lado se sentou um descendente de orientais que comia tristemente um sanduíche do Mcdonalds.

Disse meu aristocrático amigo.

“Veja! Tem um telão! E ele é maior que a parede da minha casa! E tem piano bar também!”

Aí eu não agüentei e o veneno escorreu.

“Você acha sinceramente que depois de almoçar num lugar desse, vendo esse telão, com piano bar e todo esse ambiente alguém vai produzir alguma coisa?? No mínimo esse povo deve ficar umas quatro horas almoçando. Muito almoço e zero de trabalho.”

Uma figura de terno e gravata na mesa de trás me olhava com os olhos faiscando de raiva. Com certeza era um dos executivos de quatro horas de almoço que eu mencionara antes. Notando isso dei mais uma alfinetada.

“Imagina se alguém vai ter condições de produzir alguma coisa com esse glamour todo? Sem chance!”

Acabamos o almoço e voltamos para o curso. Perto das salas tinha uma vista para o rio pinheiros. O qual estava mais preto do que petróleo. Meu amigo disse-me.

“O propósito da empresa é equivocado, mas a estrutura aqui é muito boa.”

“Pode até ser. Mas de que adianta esse prédio (torre) magnífico se a vista é para um rio putrefato? Se essa empresa tivesse o mínimo de coerência teria uma faixa enorme aqui dizendo: vamos salvar o rio pinheiros” Quando eu emiti este comentário ele me levou até uma parede com uns quadros.

“Você sabia que tem um poema do Shakespeare aqui?”

Pensei comigo “Aqui??” Foi então que vi entre eles um poema de Shakespeare emoldurado. Olhei e fiquei espantado, aquilo me deixou sem palavras e desarmado.

“Por esse eu não esperava!” Exclamei para o aristocrático “Creio que este quadro é a coisa mais importante de toda essa estrutura. Esse poema sobreviveu 400 anos e sobreviverá a outros 1000, já desse prédio (torre) não posso dizer o mesmo.”

O aristocrático concordou comigo. Depois disso tomamos um café feito numa máquina avançadíssima e voltamos para o curso.

No final do dia fiquei pensando, torre, Shakespeare, shopping. A torre e o Shakespeare combinam, mas o shopping, decididamente, não combina com Shakespeare.



* * * *



Na falta de um preconceito explícito, um blefe


Era a época dos jogos universitários. Festa, alvoroço, euforia, hormônios e à flor da pele, uma loucura.

Depois de participar de duas corridas, fomos eu, o Rei, o deus que dorme, Marx e Weber, assistir os outros jogos.

Fomos ver o jogo de futebol. A Universidade do Peixe, contra a Universidade do Santo. Um jogaço. Estávamos todos eufóricos, com exceção do meu amigo, o Rei. Dum repente, o atacante Peixe dá um chute e a bola passa a milímetros da trave.

Weber, na arquibancada, no degrau de cima onde estávamos, grita:

“Ô rei! Essa tava pra você heim? Essa você não errava!”

O Rei finge que não ouviu.

Marx, do nosso lado completa.

“Faltou mais melanina pra acertar esse gol”

O Rei também finge que não ouviu.

Acaba o jogo. Vence a Universidade do Peixe.

Próximo jogo: o de basquete masculino.

O ginásio tão lotado que não cabia nem pensamento.

Universidade Federal do Papagaio contra Universidade da Juventude.

No último quarto, um jogador da Papagaio, com dois metros de altura, faz uma jogada Michael Jordan. Dá aquela pedalada espetacular no ar e enterra a bola com uma categoria de trivialidade tendendo ao zero.

Weber dá um grito.

“Pqp!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ces viram???????? Mas também, olha a cor. Tá no sangue.”

O Marx olha para o Rei e pergunta:

“Ô Rei, cê num entrou na seleção de basquete?”

Ele responde na maior calma do mundo.

“Não...”

Acaba o jogo. Saímos do ginásio. Do lado de fora está tocando um hip hop forte. RUN DMC e Aerosmith.

Marx, sem ser demandando, emite o comentário.

“Essa música é muito boa.”

O Weber, não deixa por menos e emite também um comentário sem ser demandado a fazer tal coisa.

“Ô Rei, vocês dominam tudo. É futebol, é basquete, é atletismo, é música. Ces têm que deixar alguma coisa pra gente.”

Aí, sua majestade sobe em suas imaginárias tamancas de Luís 14 e dispara:

“P. q. pariu!!!!! Eu sou negro e sou matemático!!!!! Sou o mais novo doutorado da história do departamento de matemática!!!!!! Não sei sambar, não sei jogar futebol, não jogo basquete!!!!!! Não danço hip hop!!!! Será que deu pra entender????!!!! Seus p.!!!!! Sou um matemático negro!!!!!! Não sou afro-decendente e nem moreninho!!!!! Sou um negro humano-descendente!!!!! Cês tão ouvindo!!!!!? Seus reis do preconceito! Parem com esses blefes idiotas, seus fermazinhos de merda!!!”

Parênteses: Fermat foi um matemático que levou outros matemáticos a insanidade ao escrever na margem de um livro de aritmética, de Diofante os seguintes dizeres:

“Eu descobri uma demonstração maravilhosa, mas a margem deste papel é muito estreita para contê-la.”

Escreveu : xn + yn = zn , onde n representa 3, 4, 5, ...

Até hoje, não se sabe se, o matemático indutor de insanidade alheia realmente havia demonstrado a fórmula ou simplesmente blefou. Isto porque ele morreu antes que alguém pudesse lhe questionar sobre onde estava a bendita demonstração.

A fórmula, escrita por volta de 1637, demorou mais de trezentos e cinqüenta anos para ser demonstrada.

Fecha parênteses.

Marx, Weber, e uma boa parte dos que estavam saindo do ginásio, ficaram congelados. O Rei, percebendo a reação de todos começou a rir e apontando para o alto falante, sentenciou.

“E essa música também é um blefe!”



* * * *



Um café & Um bolo de macaxeira

A mulher era magra de mãos bem pequenas. A bolsa era desproporcionalmente grande. Procurava dentro desta alguma coisa. A fila aumentava enquanto a mulher, parecendo uma cotia cavando para achar um amendoim escondido na terra, continuava a procurar na bolsa gigante. Achou algo. Parou um pouco. Voltou a “cavucar”. Achou de novo. Tirou da bolsa uma carteira.

“O que será que eu vou querer?”

A atendente a olha com emoção tendendo ao zero.

“Pois não?”

“Ai, o que será que eu vou querer?”

“Pois não, a senhora deseja o quê?”

“Aaaahhh, não sei... o que é que você acha?”

“Lindalva, assume aqui, por favor?”

“Toma o lugar da atendente outra, risonha.”

“Pois não.”

“O que será que eu vou querer?”

“Um suco de laranja e um sandwich natural, é isso?”

“É, pode ser.”

“Próximo!!!”

Depois de duas pessoas chega a minha vez. Volta a atendente anterior.

Dou-lhe um grito

“Um café e um bolo de macaxeira! Há!”

“O senhor já veio decidido, hein? Nossa, tem um povo que chega aqui e fica perguntando para MIM o que é ELES querem. Tem cabimento? Não, se eu soubesse, num tava aqui, tava rica, né? Se eu fosse adivinha já tinha ganhado na megasena e me mandado, é duro viu, é duro...”

Do balcão da lanchonete, vejo arder o sol da tarde. O asfalto parece estar bem quente.

Atravessa a rua uma véia, com uma bolsa, também desproporcionalmente grande.

O sinal está fechado para os carros. Ela atravessa na faixa de pedestres com grande desenvoltura.

Eis que do nada, vem um motoboy mutcho lôco e tenta passar o sinal vermelho.

Não consegue. Há um obstáculo. A véia.

O motolôco dá uma freada e fica a 1 mm da anciã desenvolta.

Ela não tem dúvidas. Rápida e certeira, sua bolsa voa na direção do capacete do motodoido.

Atônito, ele perde o equilíbrio e cai com moto e tudo. Desvencilha-se ele da mótia e já se prepara para o contra-ataque.

A véia fica parada e grita “Vem, vem. Vem que tem!”

Desiste ele do intento.

Recompõe-se, levanta a moto e parte em disparada desviando-se da véia.

Ela, com a bolsa em punho, acompanha a fuga dele.

O farol abre para os carros. Estes esperam. Ela se vai, altiva, confiante.

Os carros aceleram. O fluxo volta ao normal.

Engulo meu último pedaço de bolo de macaxeira e vou embora. Esbarro com a mulher-cotia da magna bolsa. Dou um sorriso, e me afasto lenta e calmamente...



* * * *



Na falta de violinos frenéticos



A’arquitetura do metrô é muito boa.

D'acústica, desnecessário tecer comentários. Perfeita!

Já pensou? Ouvirmos um bom concerto de violino num lugar desses? 100% glamour, não é?

Enquanto esse dia não chega, ouço as conversas truncadas, rebatidas nos trilhos, nas paredes, nas colunas, no chão, nas lâmpadas fluorescentes, próprias para criar galinhas em granja, e que, finalmente chegam aos meus ouvidos caninos hipersensíveis.

“Aí! Vacilão você! Vacilão!”

“Oh mina, peraí. Fica relax. Tá na bronca por quê?”

“Por quê?!!Por quê?!!P. Meu! Como é que no meio da situação, tu num fala que eu sou tua namorada? Nada vê maluco. Tu vacilou. Maó roda presa você”

“Tá nervosinha por causa disso?”

“P. mano, e não é pra tá? Tu não tá me agarrando? Num tá pegando no meus peito? Num tá dormindo comigo? P. Meu! Como é que na hora da situação, que a tua mãe pergunta pra tu qué que eu sô, tu solta essa?”

“Aí, nada vê você. Tá nervosa à toa.”

“Aí malandro, vô te mandá um papo reto. Ô tô me assume como namorada, ô tu vaza. Tu tá entendendo?” arregala os olhos carregados de rímel “Vaza!”

“Peraííííí mina. A gente não é amigo?”

“Í mano, o negócio tá zuado pro teu lado. Por que euzinha num vô pra cama cosmeus amigo não! Tu tá zuado. Mai tu tá zuado, heim?”

Ela é uma mulher bonita que usa aparelho nos dentes e veste um uniforme azul de recepcionista de prédio comercial. Ele, veste uma calça que parece que vai cair a qualquer momento. Usa na cabeça um boné muito menor do que a própria cabeça, o que dá um efeito bem estranho.

“Aí ó, é o seguinte. Enquanto a dona Leda não subé que eu sou tua namorada, em mim c-num toca.”

Ele se aproxima e toca em um dos braços cruzados dela.

“Calma aí mina. Eu vô falar pra ela, calma.”

“Calma o c.. Daqui pra frente a parada vai sê frenética. Enquanto tu num me assumí, não tem conversa. Se ligô maluco? Tá entendendo?”

Chega o vagão. Ele ensaia pegar na cintura dela, mas ouve uma retaliação imediata.

“Tira a mão de mim! Que amigo meu num pega na minha cintura, não!”

O casal entra no vagão. Eu fico. Vem aquele acesso de riso. Em ondas. Primeiro aquela risadinha. Depois outra, e outra, e outra. E logo estou rindo sozinho feito um louco.

Penso: ainda não temos os glamurosos concertos de violinos; mas isso não significa, que os espetáculos encenados diariamente nas estações do metrô, não sejam também, tão bons quanto.



* * * *



O anjo maluco e a fera que não mente



Três vezes por semana encontro, na padaria perto de casa, dois irmãos. Um é uma fera e o outro é um anjo barroco desvairado. O primeiro anda de cabeça raspada, está sempre emburrado, bravo e de braços cruzados. O segundo é risonho tem uns cabelos loiros encaracolados e está sempre com um brinquedo na mão dando gritos de felicidade.

O pai os leva à padaria sem a presença da mãe. É divorciado e ao que parece, a mãe mora em uma cidade longe de São Paulo.

Um dia chegaram para tomar café e a fera estava mais feroz do que o de costume.

“Esse final de semana eu vou levar vocês para a casa da sua mãe.”

“Pra quê?” perguntou a fera. "Eu já conheço lá.”

“Ueeeeebaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!! Lá tem piscina!!!!” gritou o anjo desvairado.

“Porque eu prometi que levaria vocês lá esse final de semana.” respondeu o pai com um tom de adulto que sabe tudo.

“Você também prometeu que esse final de semana ia me levar na escolinha de futebol.” A fera estava de braços cruzados olhando para baixo "Prometeu e não vai cumprir?”

“Mas a sua mãe ...”

A fera jogou um olhar matador, e o pai tentou mudar de assunto.

“Você quer leite?”

“Não.”

“Pão?”

“Não.”

“Tem certeza?”

“Tenho sim, eu não minto.”

Foi um momento de tensão. Até o desvairado ficou sério, para logo depois voltar ao seu estado de euforia normal.

Por fim acabaram o ritual da padaria e se retiraram. A fera saiu do banco e foi direto na direção do irmão. Os dois saíram de mãos dadas. O desvairado emitindo vários “iuuuuuupiiiiiisssss.” com o aviãozinho em uma das mãos e a fera o puxando pelo pela outra.

Saí, e em seguida vi os três atravessando a rua.

O anjo disse:

“Cê tá apertando muito a minha mão.”

“É claro! Cê num presta atenção! Atravessar a rua não é brincadeira não!”

No meio da travessia o anjo deixou cair o aviãozinho e nesse exato momento um carro estava dobrando a esquina. A fera não teve dúvidas. Puxou-o com mais força ainda até a calçada mais próxima apesar dos gritos e protestos.

O carro passou mas o brinquedo não foi esmagado. O pai correu até o meio da rua e resgatou o aviãozinho enquanto a fera continuava sem largar a mão do irmão.

Atravessei a rua logo depois do incidente e pude ouvir o anjo louco dizer: “Cê viu?

Quase esmagou o avião!!! Uôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôô “

A fera colocou a mão nos bolsos da bermuda e respondeu.

“Cabeça oca.”

O pai sorriu.

A fera tem 7 anos e o anjo maluco tem 6



* * * *



Fui cortar cana, ao som de Diana Krall



Domingo, manhã de luz, festa de sol, fui ao parque Villa Lobos ver o show de Diana Krall.

Uma canadense pianista, cantora, ganhadora de Grammy, loura, voz sexy de canoa sendo arrastada na areia da praia, glamour!

Pensei K comigo: “Quem é que vai querer ir num show de jazz no domingo de manhã? Muito pouca gente. Vai ser um sucesso! Serei só eu e a loura, vai ser um chique no úrtimo!”

Chego ao parque, lotado, sol a pino.

A entrada é uma enorme área cimentada sem uma única sombra. Até aí tudo bem, obviamente, próximo do show deve haver algum tipo de cobertura, óbvio!

Fui me aprochegando a cúpula montada para o show, e nada de sombra.

Resolvi dar uma volta para conseguir uma sombra, todas ocupadas. Os bancos, todos ocupados. Há sombra no parque, mas quase sempre é longe da pista de corrida. Ou seja, maior parte da sombra das árvores é destinada a grama. Sim porque a grama, se pegar muito sol pode desidratar, ter uma insolação e desmaiar, deve ser esse o motivo.

Depois, pensando melhor, vi que eu estava muito negativo em relação à situação. A culpa, na verdade, era minha, afinal, como pude esquecer minha roupa de bóia fria cortador de cana. Era isso! Eu era o culpado!

Chegou meu amigo aristocrático e sua mulher. Ficamos embaixo de uma sombra conversando um pouco. Enquanto conversávamos a temperatura ia subindo. Passavam por nós freqüentadores habituais do parque e seus cães de raça.

Passa um casal com um cachorro peludo, desses que podem facilmente suportar o frio da Sibéria, cão de puxar trenó na neve.

“Ai, num é melhor cortar o pêlo dele não? O bicho vai morrer nesse calor.”

O namorado, sem coração, ou estúpido.

“Ah, mas se eu cortar, não vai nascer bonito como tá agora.”

A namorada

“Ah, é verdade.”

Nesse momento, pensei que o cachorro ia se libertar e morder os dois. Não aconteceu. Ele continuou andando de cabeça baixa com a língua arrastando no chão.

Eis que finalmente Diana começa a tocar. Técnica impecável. Nem parecia ao vivo, parecia CD.

Pois bem, deu 20 minutos de show e as pessoas começaram a debandar. Ao que parece, não havia sido apenas eu e meus aristocráticos amigos que havíamos esquecido nossas vestimentas para decepar cana-de-açúcar. Muitos outros também haviam incorrido na mesma gafe.

Enquanto andávamos em direção à saída e íamos conversando, em minha cabeça, em “background” (sim, eu penso em background) imaginava um lindo canavial, com todas as pessoas glamurosas, que haviam ido ao Villa ouvir o jazz da loura canadense. Vestidas como bóias frias, cortando cana ao som de um grande sucesso da menina Diana. Uma música de Cole Porter, cuja interpretação feita pela loura bate até, a de “olhos azuis.”, vulgo Frank Sinatra.


“Night and day, you are the one

Only you beneath the moon or under the sun...”


E tome Sun!

Fomos pegar um táxi. Imaginem quantas pessoas tiveram a mesma idéia? Imaginou? Agora multiplica por 2.

Ai que dilícia.

Cheguei em casa meio zonzo, mas nada grave.

Horas depois fui a supermercado, e eis que no caminho, ouço três vozes atrás de mim, falando de um show no parque Villa Lobos.

“P. meu! Uma hora de atraso pra colocar um piano! Vai se f.! Deixa a gente mofando lá na p. daquele Sol! C. meu! Tô todo ardido! Vai se f.!”

Outra voz, muito calma, corrige.

“Cozinhando pode até ser, agora, mofando, sem chance.”

A terceira voz

“É verdade, sol mata mofo.”

O mais irado.

“A é, então pq. não vão os dois se f.?”

Ahhhh... Ele também esqueceu a indumentária própria para as atividades canavieiras...



* * * *



No final a China sempre vence


Existe um ditado no oriente que diz que, no final a China sempre vence, ou ainda, que não se pode vencer a China. Um dia depois do ano novo tive a prova de que este ditado é verdadeiro.

Estava em uma padaria na Mooca quando vi entrar uma autêntica mama Italiana. Ela entrou espalhafatosa e falando alto.

“Norberto! Prepara o meu café que eu tô um caco! Nesse ano veio toda família passá o ano novo lá em casa! Me tô toda dolorida de tanto cozinhá!”

“Nossa dona Roberta, a senhora tem que parar com isso. As suas noras não ajudam?”

“IIiihhhhhh, elas num cozinham nada. Me fazem tudo errado Norberto. Mas eu tô ficando véia, logo, logo eu vou pará de fazer isso.”

“Com quantos anos a senhora tá agora?”

“Tô com 7 ponto 2” ela olhou para um homem que estava do lado e completou.” Japonês, quando você tiver minha idade cê vai ver que dureza é.”

Ele parou de tomar o café

“Hummmmmm... quantos anos a senhora acha que eu tem?”

Ela olhou para ele se concentrando para responder

“Uns quarenta.”

“Mais, né? Mais.”

“Uns quarenta e cinco.”

Ele movia as mãos num movimento ascendente

“Mais, né? Mais.”

“Cinqüenta.”

“Mais, né? mais.”

“Sessenta.”

“Mais, né? Mais.”

A mulher começou a ficar desconfiada

“Ô japonês, tu não tem mais de sessenta nem a pau!”

Ele ignorou o comentário e continuou

“Mais, né? Mais.”

“Sessenta e cinco?”

“Mais, né? Mais.”

“Pára de mentir o Japa!”

O homem me passou a carteira de habilitação e se inclinou até tocar os pés com as mãos. Depois da demonstração de elasticidade ele me perguntou

“Quantos anos eu tem?”

Olhei para a carteira e fiz os cálculos

“Setenta.”

Fiquei realmente espantado, mas a mulher ficou vermelha de raiva. Tomou o café que já tinha esfriado e disse

“Tô indo Norberto! Tchau!”

“Ohaaa, dona Roberta ficou nervosa hein?”

O homem de setenta que parecia ter quarenta fez uma cara confusa

“Ela ficou brava, mas eu é que devia ficar bravo. Eu não ser japonês, eu ser chinês.”


* * * *



Base inox, copo verde



Talvez esta, seja uma crônica do impossível... Tenho minhas dúvidas.

“Posso ajudar?”

“Estou procurando um microondas.”

É destes supermercados que têm tudo. Computador, geladeira, sapato, fralda, queijo parmesão e microondas.

“Hummm. Que tipo você tá procurando.”

Tinha dependurada na orelha uma caneta branca de tampa azul.

“Algo barato. A moça lá em casa queimou um novinho. Era bem bonito, cheio de glamour...”

“Ah coitado... que dó. Mas eu sei bem o que é isso.”

Tirou a caneta da orelha e começou a morder a tampa. Aparentava ter entre 50 e 60 anos.

“A menina que trabalha lá em casa quebrou o copo do liquidificador. Era de vidro, sabe? Bem bonito mesmo. A base de inox. Foi presente de casamento.”

“Hummm...”

“Pois é. A condenada achou de quebrar o copo dele. E pra achar? Foi uma tristeza. Pense numa coisa difícil de achar. Pensou? Agora multiplique por 4. E foi rodar Santa Ifigênia até fazer calo no pé. Ai, ai.”

Apoiou a mão na cintura.

“Acabei achando o copo. Verde. Já pensou? Base inox com copo verde? Aí dá até desgosto. Desgostei mesmo. Ai, ai... esse povo num qué saber não. Eles arrasa tudo e depois diz que foi sem querer. É só desgosto. Mas sim, qual que você vai levar?”

“Olha, eu gostei daquele branco ali. É baratinho. Se ela quebrar o prejuízo não vai ser tão grande.”

“É.” disse ela pensativa “é bom, mas é branco. Geladeira branca, fogão branco, microondas branco, máquina de lavar branca. Tudo branco né?”

“Ué? É...”

“Essa coisa de tudo branco me dá um pouco de gastura... eu chego em casa aquela coisa toda branca. Parece centro de macumba em dia de sexta-feira, não que eu freqüente, mas também não tenho nenhum preconceito, não é isso. Mas fica uma coisa meio de hospital. Vc não acha? Como é o seu nome mesmo?”

“Daniel”

“Pois é Daniel”

Passa uma criança mutcho lôca gritando “Mas eu quero!!!!! Eu quero!!!!! Você é chata!!!!!!”

Ela apóia o cotovelo na própria barriga, encosta o dedo indicador no lábio inferior.

“Valei-me meu Jesus de Nazaré. Me leva antes que essas coisa fique adulto.”

Fiz uma cara de conceito.

“Meus filho tá tudo crescido já. Graças a Nossa Senhora do Bom Parto. Naquela época a gente sentava a cinta mesmo, e ninguém morria. Agora, é as criança que senta a cinta nos pais. Desce fogo, desce fogo, Senhor. Mas sim, você vai levar esse branco?”

“É... vou sim...”

“Era melhor um inox. É uma coisa que é mais tchans, assim, né? Mas se você comprar uma coisa cara, vem uma empregada devastadora dessas aí, e arrasa tudo. Aí num adianta né? Tá certo, é melhor esse branco aí mesmo. C-me acompanha que vou fazer a nota pra você passar no caixa?”

No crachá, a foto dela. Sem óculos, muito bem maquiada e penteada. Abaixo da foto, o cargo: gerente. Mais abaixo, o nome: Deuza.



* * * *



Velha fulêra


Há pouco tempo, fui retirar a segunda via da minha identidade conhecida também como R.G.

Em São Paulo o serviço é espetacular. Levei a cópia da antiga identidade, um comprovante de residência e uma cópia da certidão de nascimento. Em dois dias já estava com a identidade na mão. Um “erpetáculo.” Nessas horas você pensa “isso sim é que é cidade e não aquela biboca da onde eu vim”.

Este pensamento perdura até o momento que você sai do prédio, no qual você foi atendimento como se estivesse na Bélgica, e se encaminha para a Praça da Sé. Neste momento qualquer dúvida de que você está no Brasil varonil se dissipa imediatamente.

No dia seguinte em que fui pegar meu R.G e estava descendo a escada rolante do metrô da Sé, me deparei com uma cena emblemática. Na direção da escada pensava eu “moving stairs.” Os americanos chamam de “moving stairs.” nós de “rolling stairs.” Deste pensamento passei para “rolling on the river.”, música que aliás tem uma interpretação antológica de Tina e Ike Turner. Enquanto Tina Turner dançava em minha cabeça com seu jeito inimitável , passou por mim uma adolescente que não devia ter mais do que quinze anos, e me atropelou; mas foi interceptada por uma idosa senhora que estava bem no meio da “moving” escada.

“Sai da frente sua velha fulêra!!!!!”

A adolescente ultrapassou a idosa na marra, empurrando-a para o lado numa manobra que me lembrou as partidas do campeonato nacional hockey no gelo no Canadá (um esporte muito violento). A senhora, que até então estava contemplativa , quem sabe pensando nos tempos em que era jovem e namorava ao som dos sucessos de Roberto Carlos, quando ele ainda era do movimento da Jovem Guarda, enfureceu-se.

“Que que é isso menina!!! Tu tá lôca!!!??? Que falta de respeito é essa?? Onde já se viu???”

“Fica empatando aí e não deixa gente passá!!!! Presta atenção velha fulêra!!!!

Aí o caldo entornou. A idosa contemplativa vestiu a personagem de defensora da pena de morte e sócia de carteirinha da KKK e mandou ver.

“Sua neguinha desavergonhada!!!! Tua mãe não te deu educação não???? Só podia ser neguinha mesmo!!!!!!”

A adolescente, apressada, parou e gritou de longe.

“Sô neguinha com muito orgulho velha fulêra!!!! Fulêra!!!!!!”

A adolescente, assumidamente negra, se foi, dando altas risadas. A “véia fulêra.” voltou ao seu estado contemplativo, andando devagar, com seus cabelos brancos ondulados e bem penteados. Lembrou-me as velhinhas inglesas que passeiam no final da tarde em Londres.

Foi então que pensei. O primeiro mundo, contemplativo e fulêro, não dará passagem para o terceiro mundo, neguinho, a não ser que este último abra seu caminho na marra.

A porta do metrô se abriu e assim que entrei no vagão, sem pedir licença, a música de Roberto Carlos entrou na minha cabeça

“Não adianta nem tentar, me esquecer...”



* * * *



O promotor, os direitos humanos e o pé de manga



É provável que devido ao maior número de viaturas policiais aqui no bairro, a reunião vaporosa e noturna, embaixo da copa de uma mangueira, que fica numa rua próxima d'onde moro, não aconteça mais.

Antes era bem comum, tarde da noite, ver a cena enquanto eu descia a rua, voltando da aula. Porém, numa noite dessas, a polícia desfez a “muvuca da fumaça.”, e os sacerdotes da mangueira nunca mais foram vistos.

Já tinha esquecido deste fato quando, para minha surpresa, vi, num desses canais que ninguém assiste, um debate sobre este ritual da mangueira entre um promotor, uma professora da USP e um ex-policial.

A professora dizia algo como:

“Não podemos deixar transparecer para a população que comportamentos como o da rota e do bope são os modelos que devem ser seguidos... É sabido por todos que a rota comete abusos nas suas operações no que se refere às regiões onde moram os cidadãos das classes de baixa renda e...”

O policial, já de cabelos brancos a olha com a mão esquerda segurando o pulso direito na frente da barriga.

“A senhora está muito enganada. Vê-se, e muito bem, o seu desconhecimento da prática diária. O índice de aprovação da rota, na última pesquisa, passou dos 70%, a senhora está muito enganada e desinformada.”

A professora, muito bem arrumada, cabelo preso, os joelhos juntos continuava a falar sem se importar com os interlocutores.

“As pessoas têm medo da polícia. Isso é um fato comprovado por pesquisas. É sabido que a polícia faz a seleção de seus alvos, baseada em preconceito e muitas vezes em racismo...”

O promotor perde a paciência

“Olha, eu não discordo da senhora não, mas eu vou contar um caso, que é comuuuuuumm”

Arregala os olhos e olha para a câmera e continua

“Existia um gruuuuuuupo, aqui em São Paaaaaulo, que se reunia embaixo de uma mangueira, à meia noite, numa quarta-feira. O lugar não tinha iluminação, escuuuuuuuuro, e debaixo da mangueira saía uma fumaça estranha. Pois bem, antes de qualquer coisa, o que é que cinco homens adultos, numa quarta-feira, têm de tão importante, secreto, ou seja lá o que for, que tem que ser discutido debaixo de uma mangueira num lugar sem iluminação nenhuma????!!!! Não, por favor, a senhora me responda! Vai me dizer que àquela hora de noite, aqueles indivíduos, aduuuultos, estavam lá, guardando a mangueira para ela não fugir? Ahhh faça-me o favor!! O carro da polícia passou por lá e não teve dúvidas, fez uma geral nos cinco. E pasmem, telespectadores, um era traficante de entorpecentes e todos os outros quatro tinham passagem pela polícia.”

“Mas promotor, o senhor está desviando do foco da discussão e...”

“Posso continuar? A senhora deixa? Não, porque a senhora falou uns trinta minutos mandando ver nos aparelhos do estado e eu fiquei quetinho aqui, acho que agora é minha vez, não é mesmo?”

A professora fica em silêncio.

“Eis que, vem ao meu conhecimento que um grupo de direitos humanos está protestando sobre essa ação da polícia. Ahhhhh qué que isso???!!! Onde é que nós estamos???”

O ex-policial dá aquela arrematada.

“Agora o promotor têrou as palavras da minha boca. Na minha corporação, quantos colegas meus já tomaram bala, que não era de côco, e nunca tiveram uma visita dos direitos humanos?”

A professora, com ar de superioridade:

“É, no Brasil, por falta de informação, o entendimento do real significado dos direitos humanos ainda não é compreendido.”

O promotor dá uma risada e fala ao mesmo tempo.

“Olha professora, eu sei que o seu trabalho é sério, mas a senhora vai me desculpar. Direitos humanos, para traficante que fica guardando um pé de manga, à meia noite da quarta-feira, é demais para minha cabeça.”



* * * *



Célula da discórdia


Noite, metrô, um grupo de estudantes conversa alto e grita estridentemente.

A voz cavernosa dos alto falantes do vagão.

“Próxima estação, Trianon-Masp”

Duas, porém, conversam de forma quase normal.

“E então, Mara, tu entendeu o negócio da célula tronco?”

“Oh, tipo, acho que tem tudo haver.”

“Tá mas tu é a favor ou contra?”

“Tipo, depende. Tipo, se perguntarem para mim, na rua, tipo, televisão assim, sabe? Eu sou a favor.”

“Eu vi o padre na televisão dizer que é contra.”

De novo a voz da caverna.

“Próxima estação, Brigadeiro.”

“Ah, tipo, a igreja contra tudo. Nem sei por que, tipo, pedem opinião para eles.”

“Pode crê, tipo, mó Che Guevara. Se hai ciência, soi contra!”

“Não, mas assim, na real, eu sou a favor, porque eles vão jogar os embrião no lixo mesmo.”

“Não, no lixo eles não vão jogar. Parece que depois de um tempo, tipo, eles morrem por si só, no nitrogênio.”

“Ííííí, morte por hipotermia, tipo, que louco.”

“Meu, eu acho que isso vai cair no vestibular.”

“Ííííí, Podi crê!”

“Putz! Mas se a justiça, tipo, o supremo, não conseguiu decidir, imagina a gente.”

“Ííííí, que bad, meu. Aí, se cair esse negócio no vestibular, f..”

“Pois é. Imagina, tipo, o cara que tá corrigindo a redação é católico, tipo, tu escreve que é a favor, tipo, o cara vai te zerar, meu, certeza!”

“Próxima estação, Paraíso.”

Entra na conversa um indivíduo de óculos com design péssimo e cabelo bem curto.

“Aí, eu ouvi o padre dizer que os embriões congelados nem deveriam existir. Mas, tipo, olha só.” fechou a mão e mostrou só polegar “primeiro, a igreja não incentiva adoção de criança, segundo, é contra inseminação artificial, terceiro, tipo, qué que o pessoal tem filho que nem coelho. Porra meu, em que planeta esses cara tão?”

A mais agitada, com uma espinha na testa e a roupa amassada fala com tranqüilidade.

“Ah, mas se na Europa aprovou, aqui também vai aprovar, tipo, colonialismo tá ligado? Cabeça fraca. O primeiro mundo falou tá falado, tá ligado. Vai ser aprovado, íííí, tranqüilo.”

O do óculos feio põe a mão no queixo e faz uma cara de conteúdo do “tipo.” Folha de São Paulo.

Parênteses

Um jornal de São Paulo, um dos maiores, já faz um tempo, em uma de suas edições de domingo, apresentou a foto de uma mulher com um recém nascido nos braços, e os dizeres eram algo como: “o filho do frio.”, “mãe decide gestar embrião que estava congelado.”, “puxa, ainda bem que não doei para ciência.” A matéria possuía uma tendência perfeitamente linear na direção contrária a liberação de células tronco para fins científicos. Ou foi plantada no último momento sem que ninguém conseguisse evitar, ou, realmente, o jornal perdeu a noção do inadequado. Note: você e eu podemos ser a favor ou contra a liberação; mas quando um jornal de abrangência nacional se coloca contra, que força tem a opinião de quem é a favor?

Fechado o parênteses

O vagão pára, abrem-se as portas, saem em disparada como gado tocado por tropeiros.

“Pô, Má, é mesmo heim? Não tinha pensado nisso.”

Eles seguem conversando. Espero saírem e se amontoarem na escada rolante. Enquanto isso, tiro de minha mochila o mais uterino dos livros. O título do livro?

“A mulher de costas.”



* * * *



Condomínio Alcatraz



“Estamos com uma promoção imperdível! Agora você vai poder ter a sua disposição um empreendimento que veio para, realmente, trazer o primeiro mundo para a sua vida!”

A apresentadora é uma mulher de estatura média. Os cabelos estão pintados de louro e cuidadosamente alisados. O seu terninho azul, parece uma versão do uniforme do capitão Kirk de Jornada nas estrelas.

“Não, por que é assim, você que trabalha muito, é uma pessoa, realmente, que gosta do que é bom, e merece, por que você, realmente, nasceu para essa oportunidade.

São 250 metros quadrados, 2 quartos, sala ampla, cozinha equipada com o que existe de melhor no mercado, uma varanda que é um sonho, e olha só, não pára por aí não.

Área de serviço, isolamento acústico, vidros de janela blindados, câmeras embutidas em todos os cômodos do apartamento e ainda tem mais. Um batalhão 400 boinas verdes fará a ronda 24 horas por dia, e câmeras de uma última geração vão monitorar cada metro quadrado das áreas comuns. Porque eu e você sabemos que segurança é fundamental.

Cada prédio conta com uma área de lazer, área gourmet, academia, piscina, sauna, churrascaria e muito mais.”

Entra em cena aquele que é, provavelmente, o dono do empreendimento. Um senhor, de rosto redondo, cabelos grisalhos, boca anormalmente pequena e orelhas de abano. Usa um calça social e uma camisa que parece ter sido comprada na 25 de março.

“E então, seu Adolfo, o que mais a gente pode falar sobre o mais incrível lançamento da cidade esse ano: Alcatraz?”

“Olha, muitas coisas. Realmente, este é um empreendimento único, e as pessoas não podem perder esta oportunidade.”

“Dá um exemplo pro telespectador que tá nos assistindo e que está indeciso, ou não está acreditando no nível que esse empreendimento tem”

O Adolfo puxa a fivela do cinto.

“Pra você casal , que está com receio que seus filhos entrem em contato com os filhos de outros casais com valores morais diferentes dos seus; o nosso empreendimento prevê, para cada filho, 5 andróides de última geração, os quais são facilmente programáveis, e que serão usados para entreter seu filho 24 horas por dia.”

A apresentadora bate a ficha que segura na própria perna e exclama:

“Não é demais gente? Andróides para que seu filho não se contamine com outras crianças! Incrível, né? Fala mais Adolfo.”

“Estão planejados 5 shoppings ao redor dos prédios. Ou seja, você não precisa ir para outro lugar, para fazer suas compras. Pensando em você, também planejamos uma praia com ondas artificiais para que você não tenha que ficar horas no trânsito.”

“Não, gente, é incrível. É, ou não é? Compras cansativas, nunca mais. Você não precisa mais sair de casa para fazer nenhum tipo de compra. Realmente, fantástico. E já pensou? Stress para ir pra praia nunca mais! E o que mais, Adolfo?”

“Você que acha cansativo visitar a família, o empreendimento contará com atores, treinados no Actor Studios de Nova York, que facilmente poderão interpretar sua mãe, seu pai, seus tios, seus avós e qualquer familiar seu, tudo, ao toque de um botão. Se você tiver saudade de qualquer parente, você aperta o botão, família, e os atores irão ao se apartamento e farão um performance digna de Oscar.”

“Adolfo, meu Deus! Isso é maravilhoso!”

A câmera treme um pouco.

“Além disso, teremos 55 salas de cinemas, e 150 bares com decoração inglesa, que imitam, com perfeição os tradicionais pubs londrinos.”

“E quanto à escola?”

“Serão construídas 3 escolas com capacidade para 20.000 alunos, cada uma.”

“Olha, Adolfo, eu tô, realmente, chocada. Você que tá me assistindo, tá esperando o quê? Venha e compre já o seu apartamento na planta. Eu tenho certeza: você, que comprar seu apartamento aqui, tendo todas essas facilidades, nunca mais, vai querer sair.”

A câmera dá um mexida nervosa a La Spike Lee. É hora d'ela fazer o fechamento.

“Condomínio Alcatraz, um lugar para você ficar, pra sempre!”



* * * *



Vucu, vucu, tchak, tchak



Durante a entrevista demonstrou confiança incomum.

“Mas a senhora não acha que são muitas intervenções ao mesmo tempo?”

“Sim”

“O risco é grande.”

“Eu sei, mas sou uma mulher decidida, de coragem”

O marido, ao lado, não diz nada.

Numa salinha a cirurgiã começa a fazer as marcações no corpo da paciente.

Com uma caneta, vai fazendo desenhos. Os desenhos parecem um croqui de alfaiate. São bastante estéticos. Um esboço para o que virá a seguir.

“Olha Dona Salazar, esta é uma cirurgia extensa. A senhora perdeu quarenta quilos. Mas para chegar ao resultado que a senhora quer, será necessária uma intervenção profunda e intensa.”

“Não tem problema doutora. Estou pronta. Estou fazendo esta cirurgia por mim mesma. Este corpo obeso, gordo e disforme não combina mais comigo. Estou prontíssima.”

Na frente do repórter, para uma última declaração.

“Estou ansiosa. Sei que quando sair desta mesa de operação, serei uma nova mulher. Estou entrando numa nova fase da minha vida. Minha terapeuta concorda que este é o momento correto para fazer uma mudança radical”

Ao ser focalizado pela câmera, o marido, com cara de caneca, não diz nada.

Ela abraça o marido e os filhos. Para estes diz: “A mamãe vai ficar linda, não se preocupem. Vocês vão ficar com orgulho de mim”

E vem a cirurgia.

Primeiro as pernas. Enfiam e tiram um cano fino de metal, freneticamente nas coxas e na cintura da mulher. A médica, uma americana com feições chinesas, delicada como uma sílfide, chega a montar na paciente para ter mais apoio; e tome vucu-vucu, tchak-tchak, vucu-vucu, tchak, tchak. O cano vai entrando e saindo, e aos poucos, um pote de plástico vai se enchendo de gordura.

A chinesa-americana, com orgulho e com um sorriso, mostra para câmera o pote de gordura.

“2 liters!!! It's a lot of fat, baby!!”

Agora, é hora das mamas. Corta aqui, ali, acolá e tchan, tchan, tchan, tchan!!! Os peitos da mulher estão, de novo, na mesma posição que estavam na adolescência. Não satisfeitos em colocá-los no lugar, ainda foram inseridas duas próteses de silicone. Estas mostradas com detalhes para a câmera. Por um momento, a luz da filmagem, faz as próteses parecerem pedras de quartzo.

Terceiro tempo. É o momento do rosto. O nariz é refeito com um martelo. Abaixo do olho, retira-se um excesso de gordura. Na testa, botox para dar um grau. No queixo, um implante para dar mais “definição nos traços do rosto.” Nas mandíbulas, um vucu-vucu, tchak-tchak, para tirar a papada e dar mais “definição.”

Quarto tempo. O abdômen e a cintura, os quais foram chupados, tem excesso de pele. Este excesso, segunda a chinesa-americana, precisa ser retirado. É feito um corte mágico. Retiram-se 2 quilos de pele. Recostura-se tudo e voilà. A barriga tá nova.

Quinto tempo. Por último, a pele abaixo do braço. A médica diz que o efeito não ficará bom; esta região é particularmente complicada. Não há como esconder a cicatriz; mas, sem medo de ser feliz, a cirurgiã faz um vucu-vucu, tchak-tchak básico e em seguida corta os excessos de pele.

Final de jogo. A mulher foi refeita.

Toda enfaixada com os olhos roxos e escuros, quase pretos a boca inchada e tendo como movimento corporal, apenas o dedo mindinho, ela é forçada a ouvir as declarações dos médicos.

“Dona Salazar, a cirurgia foi um sucesso. Está tudo bem agora. Está tudo bem, a senhora vai ficar linda. Correu tudo bem”

Ela olha para o marido que, ao lado, está com os olhos mais esbugalhados do que os dos lêmures de Madagascar.

“Ralph...”

“Estou aqui.”

“The mirror... I wanna a mirror.” (Um espelho, eu quero um espelho)

“Mas querida...”

“O espelho.”

Um dos médicos da equipe dá um espelho para o marido, que posiciona este na frente da esposa.

“Oooohhhhhhh fuck!!!!!!!!! Whata hell is that?????????????!!!(Não vou traduzir isto) Mas eu tô parecendo o Chewbacca sem pêlo. Ooooooooohhhhhh fuck!!!!!!!!! Ralph, enquanto eu tava dormindo, qual foi o Sun of a bitch que me levou para a rodovia para ser atropelada???? Oooooooohhhhh fuck!!!!!! Dói tudo. Que idéia de jerico foi essa????? Ooooooohhhh fuck!!!!!!!!!!!!!”

Ela na cadeira de rodas, e o marido empurrando-a, somem por uma porta do hospital.

Em seguida aparece um médico para fazer as últimas considerações.

“Isso é normal. A aparência no pós-operatório é realmente chocante. Mas o trabalho da doutora Wang foi um sucesso e tenho certeza que, no final, ela ficará bastante satisfeita.”



* * * *



Psicologia Godzilla


O supermercado que existia perto de casa foi substituído por outro.

A substituição foi feita, ao que tudo indica, porque a área ao redor do antigo supermercado não tinha catiguria suficiente que justificasse um estabelecimento daquele gabarito. Desta forma, foi instalado outro, destinado à classe de baixa renda.

O resultado disso? Ahhh, o lugar ficou bem mais divertido. Antes da mudança as pessoas que ali freqüentavam eram sempre muito sisudas e até um pouco antipáticas.

Com o novo supermercado afluíram para o lugar pessoas pitorescas “in extremis.”

Estava eu perambulando pelo “supermarket”, tentando achar alguma coisa que não tivesse monoglutamato mossódico ou glúten (uma tarefa nada trivial). O porquê? Bem... Ao que parece, se te oferecerem um pedaço de esterco de elefante coberto de glutamato monossódico, você come o esterco. O glutamato é um realçante de sabor extremamente potente e é colocado em tudo que você possa imaginar. O glúten, indicam algumas pesquisas , faz você inchar como um balão, parecendo que está se alimentando única e exclusivamente de óleo diesel.

Bem, estava eu lá, procurando o que não existe, quando ouvi um lance num relance: “João, inferno, não fura o yorrgute!”

Eram duas mulheres e uma criança de quatro ou cinco anos passeando com um carrinho cheio. À frente das duas, a criança.

Vestiam aquelas roupas de ginástica bem apertadas, tanto na parte de cima como na de baixo. Sandálias havaianas estalavam no chão a cada passo das duas. As barrigas, como se quisessem fugir dos corpos, projetavam-se para fora das camisas de lycra.

“João!!! P..q..p.. tira a mão daí!!!!”

“Iiiii, não adianta não, esse aí não tem jeito.”

“Não tem jeito o quê?”

“Nessa idade já tá furando yorgute, imagina quando crescer..iiii esse aí vai ser chave de cadeia...”

Chega o fiscal do supermercado, magro, olhos redondos, com o walktalk na mão.

“Minha senhora, por favor, não é permitido o consumo das mercadorias dentro do supermercado.”

A mãe, como se fora o Godzilla, arranca o yogurte, furado pelos dedos do infante, e o deixa na prateleira.

O fiscal vai embora, friamente.

“Vixi! Nazé, que mico.”

O menino, assustado e com o rosto sujo de yougurte, olha para duas.

“Mal saiu da fralda já entrou no crime.”

Irritada, a mãe do menino pára o carrinho, põe a mão na cintura, e mexe o pescoço como se fosse uma legítima integrante do Fat Family.

“Olha Teca, não foi o meu irmão que puxou dez anos de cana no Carandiru não. Então, antes de dizer que o meu filho vai virar trombadinha olha pra tua família primeiro, viu?”

“Ai Nazé, eu tô brincando.”

“Sei, sei. Sei muito bem qual é tua, te conheço... Brincando, brincando, tu chama a viuge Maria de vagabunda sem ninguém percebê...”

Depois de achar minhas mercadorias sem glúten e sem glutamato encontrei-as de novo, na fila.

“Nazé, mas tu não vai levar nada pro menino?”

“Eu não. Não furou os yórrgute? Pois então, agora também num vô levá nada.”

“Ai Teca, mas o menino não fez por mal”

“Mas não era tu mesmo que tava dizendo que ele tava já indo pra mau caminho? Então, já tô adiantando a pena.”

O garoto ameaçou chorar, ao que foi imediatamente desencorajado do intento.

“Olha João, minha cota de mico hoje já acabou, viu? Se chorar te meto a mão! Sossega a torneira aí, se não o bicho vai pegá. Entendeu neném?”

Enquanto pagava minhas compras não parava de pensar: “Será que yórrgute tem glurrtén?”


* * * *



Caçada ao Poeta



Fui caçar um autógrafo de meu poeta favorito, Thiago de Mello.

Lá, na Casa das Rosas onde o cheiro de queimado persegue os que adentram.

Ao chegar, um homem de cabelos prateados e barba um tanto caótica, me recebe.

“É o sarau do Thiago de Mello?”

“É sim, ele já está descendo.”

A sala estava lotada.

As homenagens eram muitas. Uma cantora, que não conheço, cantava músicas antigas.

Pátria da Água, este é o livro.

Acabei de lê-lo ontem.

Thiago de Mello é poeta de verdade. Poeta com P maiúsculo.

Contemporâneo de Neruda, de Niemeyer, Lúcio Costa.

Pertence a uma elite cultural cada vez mais rara no Brasil.

Escritor que consegue falar de algo que não seja seu próprio umbigo.

Comprei o livro e comecei a ler lá mesmo.

Chegou um menino, 4 a 5 anos.

“Queque-c-táfazendo?”

“Estava lendo.”

“Ééé?”

“Sim”

“Por queque-c-num tá lá dentro?”

“Porque estou aqui fora.”

“Queque tá escrito?”

“Bem, o livro me parece ser uma homenagem e um alerta no que se refere a Amazônia.”

“Num entendi.”

“Não se preocupe, você é muito criança; e a função das crianças é fazer perguntas sábias e sempre dizer que não entendem o que adulto fala.”

“O quê?”

“Viu?”

“Viu o quê?”

“A pergunta. Você fez a pergunta e demonstrou que não entendeu o que estávamos falando anteriormente.”

“Num tô entendendo nada do que você tá falando.”

“Exacto.”

A criança foi embora. Voltei a ler meu livro recém comprado.

Nada das homenagens acabarem.

Página 50. Homenagens, homenagens, homenagens.

Desisti.

Dirigi-me ao homem da barba caótica.


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